Pensando+

Maio 2016


O mundo só se mantém por meio do sopro das crianças que estudam.
(do Talmude, in Amin Maalouf, Um Mundo sem Regras, Difel, 2009)

1.

Olhando à nossa volta temos hoje consciência de que a sociedade portuguesa mudou e vai continuar a mudar porque a Europa e o mundo estão em mudança. Esta nova situação, tão bem descrita por Pinto Ribeiro (2011: 85-86), revela-nos que a Europa de hoje “já não é apenas a Europa de Dante, de Camões, de Kant, de Klimt, de Godard, etc. É o espaço de múltiplos centros de produção e de decisão culturais; é uma Europa de circulação de criadores, produtores, cientistas; é uma Europa multicultural, com escritores africanos a residirem em Paris ou em Lisboa, cineastas indianos a trabalharem em Londres e em Amesterdão, artistas plásticos chineses a criarem em Barcelona e Berlim, (...), ucranianos a viverem em Lisboa; artistas portugueses a produzirem em Ljubliana e parisienses em Praga”. Este é um maravilhoso retrato da Europa: cosmopolita, estimulante, sedutora e onde nos apetece viver, trabalhar e amar.

Contudo há uma outra Europa pois, como dizia Brecht no poema “O Elogio da Dialéctica,” O que é seguro não é seguro/As coisas não continuarão a ser como são”. Nesta dualidade de pensamento, é visível a necessidade de uma intervenção concertada, coerente e consistente, para que seja possível conciliar a abertura à alteridade e à mudança com a inclusão, garantindo a igualdade efetiva de direitos e deveres no acesso à mobilidade, à educação e ao trabalho, ao lazer, à saúde e à habitação. Tudo isto num quadro ideológico atual de interculturalidade, em que a integração seja olhada e pensada também através dos projetos pessoais e familiares das populações migrantes e a coesão social se construa com e pelas pessoas.

O intenso movimento dentro da Europa de pessoas provenientes de outros continentes afetados pela fome, pela guerra e pela destruição, incrementado, mais recentemente, pelas vagas sucessivas de refugiados, mostra como a velha Europa continua a ser um lugar de acolhimento porque oferece segurança, liberdade de expressão e reconhecimento dos direitos fundamentais.

Nós queremos saber viver num mundo de diversidade procurando os caminhos que nos levam ao encontro, ao conhecimento, à construção de passagens com sentidos múltiplos. É condição de muitos chegar, ficar ou partir; habitar espaços com novos significados que se transformam ou permanecem os mesmos; inventam-se outros num mundo cujo quotidiano é multicultural, pois as nações e povos deixaram de estar circunscritos a espaços e limites territoriais ou geográficos (André, 2012). Desenham-se, por isso, os fundamentos de uma nova filosofia da interculturalidade, plural e permanentemente crítica, obrigando-nos a constantes exercícios de questionamento e procura, em direção a um “amanhã” melhor para a raça humana/ a Humanidade, na nossa “casa comum”.


2.

A propósito de diversidade, recorremos à Declaração Universal da Unesco (2002) em cujo artigo 3º, “Diversidade cultural factor de desenvolvimento”, ela é considerada como uma das fontes do desenvolvimento, entendido não apenas em termos de crescimento económico, mas também como meio de acesso a uma vivência satisfatória do ponto de vista intelectual, afetivo, moral e espiritual. E que, libertos de eventuais leituras etnocêntricas, entendamos que é no sentido de uma “cultura universal da libertação humana” que queremos caminhar. (André, 2005:138)

Quando falamos de desenvolvimento é costume dizer-se que é no presente que pensamos o futuro. Ora é pensando neste contexto tão diverso em que agora tão intensamente vivemos que a ação dos professores se impõe no que diz respeito à promoção de aprendizagens interculturais. Quem melhor do que os professores para ensinar as crianças e os jovens a interagir com outros, em ambientes diversos, em busca da preservação de valores culturais e humanísticos? Ou seja, a preservar a diversidade cultural, como herança comum da Humanidade, em consonância com o pensamento da Unesco.

A escola que conhecemos tem revelado ser capaz de desenvolver boas estratégias de acolhimento e de inclusão de crianças e jovens de diferentes origens. Pode agora aprofundar as suas práticas procurar outras maneiras de responder a esta nova situação trilhando caminhos novos que possam ensinar a todos- alunos, professores e pais- a viver melhor na diversidade e com a diversidade.

Como dizia Umberto Eco (1998: 115-116) “Educar para a tolerância os adultos que se correm a tiro uns aos outros por razões étnicas e religiosas é tempo perdido. Já é tarde. Assim, a intolerância selvagem combate-se nas raízes, através de uma educação constante que comece na mais tenra infância, antes que seja escrita num livro, e antes que se transforme em crosta temperamental demasiado espessa e dura”.



3.

Falando ainda da Escola e agora da multiplicidade de situações linguísticas que nela se vivem, somos levados a uma reflexão sobre a função das línguas na escola e, consequentemente, a rever práticas de gestão linguística escolar. Trazemos à discussão a interessante visão de George Steiner “A escola é um curioso local de linguagem. Aí se misturam as línguas oficial, privada, escolar, línguas maternas, línguas estrangeiras, calão de estudante, calão do Bairro. Considerando todas estas línguas que coabitam, digo para comigo que a escola talvez seja o único local onde elas podem encontrar-se na sua diversidade e nas suas sobreposições. Mas é preciso estarmos muito vigilantes e tirar partido precisamente desta bela heterogeneidade.” (Steiner e Ladjali, 2005, pp 64- 65).

Neste âmbito, e porque se trata da escola portuguesa, reforçamos a importância da aprendizagem da língua do país de acolhimento – o Português – indispensável ao sucesso das aprendizagens escolares e à formação para a convivência e crescimento interculturais.

Plurilinguismo escolar não supõe que todas as línguas sejam línguas de ensino, nem que o sistema educativo seja bilingue, mas significa que se trata de uma situação que nos mostra haver diferenças entre as funções das línguas da escola e na escola. Vejamos: em Portugal as línguas de aprendizagem ou da escola são as línguas estrangeiras e o português. Podem ser objeto de estudo (matéria a aprender) e instrumento de ensino e de aprendizagem de outras disciplinas. Habitualmente só a língua estrangeira desempenha uma única função: objeto estudo, cabendo ao português as duas funções. Mas há outras línguas na escola. As línguas dos alunos de origem migrante que no recreio e com os seus pares as usam nas brincadeiras e nas conversas mais pessoais.

Naturalmente que a presença destas últimas é de natureza quase simbólica. Mas, também por isso, deve ser acarinhada.



4.

Pensando na importância que neste âmbito assume a formação dos professores, sublinhamos a necessidade de conhecerem e discutirem, de forma crítica e reflexiva, o que a investigação mais recente tem produzido, estimulando a atualização científica e pedagógica e melhorando a sua intervenção nos contextos de trabalho mais complexos e exigentes.

Entre outras, há quatro áreas temáticas que consideramos fundamentais:

  1. Sobre línguas no mundo: sua distribuição geográfica, sistemas de escrita; politicas linguísticas.
  2. Sobre línguas e currículo: práticas educativas de sucesso (nacionais e internacionais); adaptação e elaboração de materiais pedagógicos; gestão do plurilinguismo escolar; teorias sobre aquisição e aprendizagem de línguas e metodologias de ensino e de aprendizagem.
  3. Sobre relação escola - família: sistemas educativos de diferentes países; metodologias de trabalho com adultos; mediação cultural.
  4. Sobre migrações: causas e consequências; dados sobre imigração em Portugal (números, países de origem, evolução...); legislação nacional e europeia sobre integração de populações migrante.

De acordo com Banks (2012), precisamos ainda de professores que considerem a diferença de origem social, cultural e étnica, linguística, de religião e de género um valor promotor da equidade educativa; que integrem nas suas práticas as contribuições da investigação sobre contextos de diversidade linguística e cultural.



Luísa Solla e Adelina Gouveia
Comissão Pedagógica do Centro de Formação da APEDI


REFERÊNCIAS


ANDRÉ, J.M. (2005). Diálogo intercultural, utopia e mestiçagens em tempos de globalização. Coimbra: Ariadne Editora

ANDRÉ, J.M. (2012). Multiculturalidade. Identidades e mestiçagens. Coimbra: Palimage.

BANKS, J.A. (ed) (2012). Encyclopedia of Diversity Education. UK. Sage Publications.

BRECHT, B. (2007). Poemas. Porto: Edições ASA.

ECO, U. (1998). Migrações, Tolerância e Intolerável. In Cinco Escritos Morais, Difel.

UNESCO (2002). Declaração Universal da Unesco sobre a Diversidade Cultural.

MAALOUF, A. (2009). Um Mundo sem Regras, Difel.

SOLLA, L. Estrategias y materiales para la ensenanza de Portugués Lengua No Materna: un proyecto desarrolado con escuelas de educación básica. Revista SL&i, en Red (Segundas Lenguas e inmigración). Vol 1, nº 7, novembro-abril de 2013. Link

STEINER, G., LADJALI, C. (2005). Elogio da Transmissão O professor e o aluno

RIBEIRO, A.P. (2011). A Europa cultural. In Questões Permanentes. Ensaios escolhidos sobre cultura contemporânea. Lisboa: Edições Cotovia.